A aeronave foi reconstruída à partir de um exemplar vindo da Argentina, sendo que a documentação disponível mostra ser originalmente o Fleet 5, com C/n 107, fabricado nos Estados Unidos, pela Consolidated Aircraft, que foi registrado na Argentina em 18 de maio de 1933, quando então recebeu a matrícula nacional civil LX-ZBX. O proprietário na ocasião era o próprio Ministério da Aeronáutica argentino e, embora registrada na categoria de “Turismo/Escola”, a atuação efetiva do exemplar foi nesta última tarefa, servindo como aeronave de instrução básica para a formação de pilotos.
Ainda pela documentação original argentina, podemos ver que, em 1947, ela já havia sofrido uma remotorização, passando do Kinner K5 original (C/n 1801), de 100hp, para a versão B5, de 125hp, e constando como acessórios dessa motorização, o carburador Holley modelo 419, magnetos Bendix Seintilla modelo SB5-1N8, velas Champion modelo C26, tampas de velas e porca de levantamento de motor. É importante observar que esta alteração efetivamente transformou o Fleet 2 num Fleet 7, uma vez que a motorização é a diferença entre as duas versões (o Kinner K5 no modelo 2, e o Kinner B5, mais potente, no modelo 7), valendo constar que mesmo na produção original, foram feitos apenas 48 Fleet 7 originais, sendo todos os demais entregues pela fábrica obtidos da conversão de exemplares Fleet 2.
Na sequência, em seu histórico, o biplano passaria por outras quatro substituições de motor (mas sem alterar o tipo de motor), em 1956, 1957, 1960 e 1962, quando foi instalado o Kinner B5 que permanece na aeronave até os dias atuais. E, ainda relativo a este tópico, a hélice de madeira de passo fixo, fabricada por Pigñolo, que também está na aeronave até hoje, foi instalada em 15 de abril de 1960.
Até 1957, o exemplar já havia acumulado 3.777,13 horas de voo, durante as quais realizara 1.799 pousos e decolagens, e continuou a voar praticamente diariamente até 1961, quando só então se observa uma redução em sua frequência de voos, mas ainda em grande uso, até 1972, quando completou 4.156,09 horas de voo. Um registro posterior de 18 de abril de 1990, totalizaria 4.364,30 horas de voo, indicando portanto uma atividade bem menos intensa nestes cerca de 18 anos, com pouco mais de 210 horas de voo neste período.
Pode ser que este período de atividade de voo menor coincida com a transferência da aeronave para propriedade da filial argentina da empresa norte-americana de componentes elétricos E.G.L. Corporation S.A. (infelizmente, não há documentação que indique a data exata em que a empresa adquiriu a aeronave). Mas, seja como for, a aeronave pertencia à citada companhia e estava baseada em San Fernando, Província de Buenos Aires, quando foi adquirida pelo piloto e restaurador de aeronaves brasileiro Lúcio Sallowicz, em 1º de maio de 1990. E como ainda estava em condições de voo, foi trazida voando pelo brasileiro – inicialmente num verdadeiro reide de quatro dias, até Sorocaba (SP), e depois, até o seu novo endereço, no hangar de Sallowicz, Condomínio Aeronáutico Vale Eldorado, em Bragança Paulista (SP).
No novo de translado para o Brasil, Lucio Sallowicz passou pelos Aeroportos de Gualeguaychú (SAAG), Concordia Comodoro Pierrestegui Airport (SAAC), Pasos de los Libres (SARL), o Internacional de Urugaiana (SBUG), Alegrete (SSLT), São Sepé (SSEP), o do Aeroclube de Belém Novo (SSBN), do Aeroclube de Santa Catarina (SSKT), Guaratuba (SSGB), Itanhaém (SDIM) e, finalmente, Sorocaba (SDCO).
A partir de sua chegada no Vale Eldorado, em 1990, o Fleet passou a ser inteiramente reformado por Sallowicz, com o objetivo de deixá-lo o mais autêntico possível, e próximo à sua configuração original de quando foi registrado na Argentina, em 1933 (exceto pela motorização, que continuou com o Kinner B5, deste modo caracterizando o aparelho como um Fleet 7). Deste modo, o trabalho de reconstrução foi tão intenso e abrangente que não havia como registrar a aeronave pelo fabricante original, a Consolidated Aircraft, sendo então necessário que fosse totalmente recertificado, daí o seu registro na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) ser apenas à partir dessa reconstrução, e por este mesmo motivo, o aparelho constar no RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro) como sendo de fabricação do próprio Lúcio Sallowicz, com número de fabricação “001”, e do modelo “Fleet B-S”, sendo que seu processo de recertificação foi concluído com sucesso e oficializado no RAB em 27 de janeiro de 1992, recebendo então a matrícula civil brasileira que possui até hoje, PP-ZOC.
E aqui é obrigatório que se fale um pouco de Lúcio Sallowicz.
Empresário e piloto, Sallowicz era um apaixonado por aviação e sua história de longa data, e nos anos 90, fez parte de uma hoje extinta “confraria” de amantes de aeronaves antigas, que tinha por ninho o chamado Condomínio Aeronáutico Vale Eldorado, em Bragança Paulista (SP), que foi o primeiro de seu tipo a ganhar notoriedade no Brasil, e desde então vem inspirando diversos outros, incluindo o Céu Azul, onde hoje se encontra o Vintage Hangar. Lúcio Sallowicz foi um dos primeiros a se mudar para o condomínio, construindo uma casa-hangar, que inclusive serviria de modelo para muitas outras que viriam depois, não apenas ali, mas em outros condomínios similares pelo Brasil todo.
Além dele, se reuniam (e alguns, moravam) no Vale Eldorado, outras personalidades que, como ele, marcaram a aviação brasileira leve, como o renomado piloto e autor de testes de aviões na imprensa, Fernando de Almeida; o conhecido piloto e artista de aviation-art, Mauro José de Godói Moreira, e o empreendedor e piloto Luís Sérgio Fernandes Franco, entre tantos outros. E dessas reuniões nasceu uma associação de cunho até então inédito no Brasil, a ABAAC (Associação Brasileira de Aeronaves Antigas e Clássicas), que além de fomentar a recuperação de aeronaves históricas e batalhar frente às autoridades pela flexibilização das regras referentes à estas, também produzia um informativo dirigido aos associados, chamado “O Biplano”. Neste, além das informações da associação, curiosidades da aviação e outros itens, também se publicavam notícias da “descoberta” de aeronaves históricas, geralmente em estado de abandono, pelo Brasil afora. Infelizmente, hoje, com o falecimento de muitos destes apaixonados “ativistas”, a ABAAC não está mais ativa.
Mas, por muitos anos, por boa parte da década de 90, o Fleet 7 de Sallowicz se converteu num símbolo, não apenas da própria ABAAC e do Vale Eldorado, mas de toda uma nova mentalidade na aviação geral brasileira, de se recuperar e voar essas aves antigas e clássicas. De fato, nestes anos, o Fleet 7 era o avião mais antigo a ser mantido em voo no Brasil – posição que só veio a perder no final da década de 90, quando os irmãos Rolim e João Francisco Amaro concluíram a restauração de um Curtiss Robin C-2, de 1928.
E foi o próprio Sallowicz, segundo documento de 14 de dezembro de 2016 (oficializado no Registro Brasileiro de Aeronaves em 25 de janeiro de 2017), que vendeu a aeronave para a AB Administração de Bens Negócios e Participações Ltda, de Joinville (SC). Porém, antes que o histórico biplano passasse então a integrar o acervo do Vintage Hangar, ele foi entregue para uma restauração completa em Curitiba (PR), nas mãos do renomado especialista Luís Gustavo Panceri, o “Faco”, em sua empresa, a Aero Classics.
O trabalho teve início no final de 2019, quando Panceri viajou aos Estados Unidos para comprar e trazer alguns materiais e componentes necessários, e efetivamente foi feito em 2020, numa empreitada de alguns meses de trabalho, que envolveu uma revitalização completa e profunda de todo o avião – foi jateada a estrutura da fuselagem, foram revitalizadas todas as ferragens, feitos novos bordos de ataque e de fuga, assoalhos novos, painéis novos de instrumentos, entelagem e pintura todas novas e diversos outros itens. O estaiamento, por exemplo, teve de ser importado dos Estados Unidos e feito sob medida, porque os que estavam na aeronave já estavam bastante desgastados. Praticamente, um overhaul completo de toda a aeronave. Apenas o motor Kinner B5 é que não foi mexido, tendo sido apenas retirado e reinstalado. Enfim, em outubro de 2020, o restaurador entregou o Fleet 7 totalmente revitalizado, e este passou a poder ser apreciado junto com as outras aeronaves no Vintage Hangar no início de 2021.










