O exemplar do acervo é o Cessna 150, produzido em 1959, com C/n 17564, é uma aeronave de valor especial, pois se trata de um dos primeiros exemplares do modelo fabricados, em sua versão original – um dos 683 que foram fabricados naquele ano.
O seu último proprietário nos Estados Unidos, que o vendeu para exportação para o Brasil foi Boyd W. Simmons, de Bend, Oregon, que aparentemente o adquiriu em 2013. Antes disso (2006), a aeronave esteve registrada em nome de Mary Schulte. E, enquanto naquele país, a aeronave voou com a matrícula civil norte-americana N7764E.
Quem o comprou de Simmons, trazendo-o para o Brasil, foi o irmão do então presidente do Aeroclube de Poços de Caldas (MG), Jean Claude Manzo, em 2015, e pelo seu ano de fabricação, a sua célula tinha um número surpreendentemente baixo de horas voadas ao chegar em nosso país – pouco mais de sete mil horas de voo. E segundo pôde ser apurado, embora o aparelho, que recebeu a matrícula nacional PR-GBM, tenha sido agregado à frota do citado aeroclube, ele não era usado para a instrução, não sendo voado por alunos e instrutores. De fato, a sua “integração” ao aeroclube era apenas nominal, de jeito que o aparelho pudesse ser hangarado nas instalações do aeroclube e ali recebesse as manutenções previstas, mas a aeronave era de fato de uso particular dos irmãos Manzo. E com estes, a aeronave voou cerca de 200 horas.
Mais tarde, em 2019, o Cessna 150 foi adquirido por Thiago Padrão, que com o seu irmão Leo, fez um overhaul completo no motor Continental O-200A da aeronave, e foi instalado um radiador de óleo. Segundo Leo explicou em depoimento ao jornalista e historiador Claudio Lucchesi, o motor tinha provisão para um radiador desse tipo, mas não vinha com este, e foi assim que o instalaram, sem assim ser feita nenhuma modificação nas características originais da aeronave. “Com essa instalação, houve uma queda de 30ºC na temperatura do óleo. Para se ter ideia, inicialmente, ele tinha um pequeno vazamento no eixo do virabrequim, pois o aquecimento do óleo o deixava fino demais – e daí o vazamento. Com a instalação do radiador, esse vazamento, por exemplo, acabou.” Além disso, Leo Padrão quis destacar a qualidade da rebitagem da aeronave, de altíssimo padrão, uma das melhores que já tinha visto.
Com os irmãos Padrão, o PR-GBM foi integrado à frota do Aeroclube do Estado de Minas Gerais (ACEMG), no Aeroporto Carlos Prates, em Belo Horizonte (MG), mas neste caso, o aparelho foi efetivamente utilizado pela instituição para a formação de novos pilotos, inclusive servindo para os voos solo dos alunos. Apesar disso e de estar em serviço desde 1959, o PR-GBM nunca teve um único acidente, ou mesmo incidente!
Outro ponto interessante é que, no processo de compra dos irmãos Manzo, Leo Padrão voou a aeronave, para ver se esta poderia ser utilizada para instrução (formação de pilotos), e se surpreendeu ao encontrar no PR-GBM um avião “muito mais manso, de pouso e decolagem, que um Cessna 140”. Comentando sobre o Cessna 150, ele cita que o aparelho “tem muito comando de leme. Uma aeronave muito dócil para a corrida de decolagem, e para o pouso, também”. Outra característica que ele destaca é que a aeronave tem uma posição de flap de 40º – “se você entra ‘alto’ para o pouso, você dá um flap em 40º e traz ele para 60 milhas (por hora), e ele desce como um helicóptero!” Para se ter ideia, neste procedimento, a descida vertical é tão abrupta que a recomendação é que não se pouse com 60 milhas/hora, mas que quando a aeronave entrar na rampa, dar “um pouquinho de nariz”, para ele ir a 65, deste modo evitando uma pancada muito forte com a pista.
Infelizmente, porém, o fechamento do Aeroporto Carlos Prates, por decisão do Governo Federal, efetivada em 1º de abril de 2023, colocou a própria existência do ACEMG em xeque, deixou “sem teto” toda a sua frota. Neste cenário, Thiago Padrão, não quis colocar a aeronave em outra escola de pilotagem, porque enquanto esta estava no ACEMG, apesar de seu uso pelos alunos, os irmãos estavam sempre por perto, acompanhando o uso da aeronave, e monitorando a sua correta manutenção nas melhores condições possíveis, o que não seria possível com o aparelho numa outra instituição – “nós o mantínhamos sempre muito bem cuidado”, destacou Leo Padrão.
E outro ponto interessante é que o PR-GBM é o único Cessna 150 no Brasil com configuração de roda na bequilha. Como já observado, o modelo foi criado com um trem de pouso triciclo de roda no nariz, mas a própria Cessna oferecia um kit de conversão para roda na bequilha, e o PR-GBM passou por esta modificação, entre 1995 e 1997, ainda nos Estados Unidos, como N7764E.
Então, em 1º de julho de 2024 foi registrada no RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro) a transferência de propriedade do PR-GBM para o Dr. Alberto Bornschein, e assim o exemplar passou a fazer parte do acervo do Vintage Hangar.






