SANTOS DUMONT DEMOISELLE

Matrícula (Brasil): PU-DUM

Origem: França

Nosso DEMOISELLE

Em 23 de outubro de 1906, Alberto Santos-Dumont surpreendeu a comunidade científica e o público em Paris ao decolar com o 14-Bis e percorrer 220 metros no Campo de Bagatelle. O feito representou um marco decisivo na história da aviação, pois demonstrou publicamente a possibilidade do voo motorizado por meios próprios, inaugurando uma nova era tecnológica que mudaria profundamente a relação da humanidade com o transporte e o espaço aéreo.

Diante da importância desse acontecimento, poderia parecer natural que o empresário e piloto Fernando de Arruda Botelho, líder do Instituto Arruda Botelho (IAB), escolhesse construir uma réplica do 14-Bis. No entanto, sua decisão foi diferente: o projeto escolhido foi o Demoiselle. Segundo Botelho, diversas réplicas do 14-Bis já haviam sido produzidas por outros pesquisadores e entusiastas, tornando desnecessário repetir esse trabalho. Além disso, embora o 14-Bis tenha sido um grande feito de pioneirismo, o Demoiselle representava um passo ainda mais significativo para a consolidação da aviação, sendo considerado um dos primeiros aviões práticos e o primeiro aeroplano produzido em série no mundo.

A análise dos projetos de Santos-Dumont revela que o inventor brasileiro privilegiava aeronaves leves e de pequenas dimensões. Ele acreditava que a redução de peso e tamanho era fundamental para superar os desafios da sustentação e da aeronavegabilidade, uma ideia que nem sempre era compartilhada pelos estudiosos da época. Nesse contexto, o 14-Bis se destacava por ser relativamente grande e pesado. Após seus voos iniciais, Santos-Dumont percebeu limitações na configuração canard do aparelho e passou a desenvolver projetos mais leves e refinados, culminando no Demoiselle.

O Demoiselle tornou-se uma aeronave notavelmente avançada para sua época.
Sua estrutura simples e eficiente influenciou diversos projetos posteriores e pode ser considerada precursora de muitos conceitos presentes em aeronaves ultraleves modernas. Sua fuselagem tubular, com estrutura leve e cabos de sustentação, associada ao posicionamento do piloto sob a asa, antecipou características que seriam retomadas em projetos do século XX.

A motivação para construir uma réplica surgiu no final de 2003, quando Botelho percebeu que as comemorações do centenário do voo do 14-Bis não estavam recebendo a atenção que ele considerava adequada. Em conversa com o então Comandante da Aeronáutica, Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista, decidiu iniciar a construção de uma réplica voadora do Demoiselle. Desde o início, o objetivo era que a aeronave não fosse apenas uma peça de exposição, mas que tivesse plena capacidade de voo.

O primeiro passo foi reunir documentação histórica. Inicialmente Botelho encontrou uma planta publicada na revista norte-americana Popular Mechanics em 1910, mas precisava de material mais detalhado. A aviadora brasileira Anna L. Walker conseguiu uma cópia de uma das plantas originais preservadas na França.
Com esse material, Botelho viajou a Paris e teve acesso ao acervo do Musée de l’Air et de l’Espace, em Le Bourget, onde adquiriu cópias oficiais das plantas originais do Demoiselle.
Com base nesses documentos, iniciou-se em 2004 o desenvolvimento da primeira réplica, baseada no Demoiselle nº 20. O projeto contou com o apoio de professores da Universidade de São Paulo (USP), especialmente do professor Fernando Martini Catalano, que auxiliou nos cálculos estruturais e aerodinâmicos necessários para adaptar o projeto às exigências atuais e às características físicas dos pilotos modernos.

A primeira réplica manteve diversos elementos do projeto original, mas recebeu algumas adaptações técnicas. A fuselagem foi construída em aço aeronáutico em vez de bambu, visando maior resistência estrutural. As asas, ainda de madeira, tiveram o perfil aerodinâmico ligeiramente alterado para melhorar desempenho e estabilidade. A seda japonesa original foi substituída por entelagem aeronáutica convencional.

Outras melhorias incluíram freios a disco, cinto de segurança de quatro pontos e comandos de voo adaptados aos padrões modernos, com pedais para o leme e manche de dois eixos para controle do profundor e dos ailerons. O motor escolhido foi um Volkswagen modificado, com dois cilindros opostos, produzindo cerca de 35 hp.

Após mais de um ano de construção, os primeiros testes de solo ocorreram em junho de 2005 na Fazenda do Broa, em Itirapina (SP), durante o evento aeronáutico Broa Fly-In. O próprio Botelho realizou diversas corridas na pista para avaliar o comportamento da aeronave. Entretanto, o Demoiselle mostrou-se instável e não conseguiu decolar, o que quase levou ao abandono do projeto.

A situação mudou quando Botelho conheceu o construtor de ultraleves Alvarino Nunes, conhecido como “Cabeça”. Ele e seu filho Fábio revisaram a aeronave, corrigindo falhas estruturais e ajustando os comandos de voo. A réplica foi transferida para as instalações da empresa ANP, em São Paulo, e passou por diversas modificações.

Em outubro de 2005, durante testes realizados em Itanhaém, ao nível do mar, a aeronave finalmente realizou sua primeira decolagem, voando cerca de 1.300 metros a aproximadamente seis metros de altura. Apesar do sucesso, os testes revelaram problemas de potência e de centro de gravidade, resultado principalmente do peso maior da réplica em comparação ao modelo original.

Diante dessas limitações, Botelho decidiu construir uma segunda réplica, baseada no Demoiselle nº 22. Com a experiência adquirida, a nova aeronave recebeu melhorias importantes. A fuselagem passou a ser construída majoritariamente em alumínio aeronáutico, reduzindo o peso estrutural. A envergadura das asas foi aumentada em 1,25 metro para melhorar a sustentação, e o perfil aerodinâmico foi redesenhado.

O projeto contou ainda com a participação de alunos do SENAI e da USP São Carlos, que colaboraram na fabricação de peças e na execução de cálculos estruturais.
Outro fator decisivo foi a escolha do motor. A equipe optou por um motor japonês HKS de quatro tempos, com dois cilindros opostos, potência de 60 hp e peso de apenas 52 kg, proporcionando uma relação peso-potência adequada para o projeto.
Após 84 dias de trabalho, a segunda réplica foi concluída. Em março de 2006 iniciaram-se os testes no aeródromo do Broa. No dia 18 daquele mês, Fábio Nunes realizou o primeiro voo bem-sucedido da aeronave, atingindo cerca de 305 metros de altitude e velocidade aproximada de 60 km/h. No mesmo dia, Fernando Botelho também pilotou o aparelho, realizando diversos voos de teste.

Com o sucesso do C/n 002, o projeto ganhou impulso e novas réplicas foram construídas, totalizando seis aeronaves. O exemplar atualmente preservado no acervo corresponde ao C/n 006, última unidade produzida no âmbito do projeto.
Além dos voos de teste, o Demoiselle participou de diversas atividades de divulgação histórica. Em abril de 2006 ocorreu o voo oficial para a imprensa.
Posteriormente, uma das aeronaves realizou uma travessia entre Paraty e Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro, percorrendo cerca de 100 km ida e volta sobre o mar.
O projeto também ganhou destaque internacional. Em 2005 representantes do Instituto Arruda Botelho participaram de reuniões e palestras na Wright State University, nos Estados Unidos, apresentando estudos sobre Santos-Dumont. O trabalho despertou grande interesse e levou ao convite para que réplicas do Demoiselle participassem de eventos comemorativos nos Estados Unidos.

Em setembro de 2006 duas aeronaves foram enviadas ao país. Uma delas ficou exposta no National Air and Space Museum, em Washington, enquanto outra participou de eventos em Dayton, Ohio. Ali ocorreu um momento histórico: pela primeira vez o Demoiselle voou lado a lado com uma réplica do Flyer dos irmãos Wright, em um evento registrado e transmitido pela NASA.
Nos anos seguintes, as réplicas continuaram participando de exposições e demonstrações aéreas, contribuindo para ampliar o reconhecimento internacional da obra de Alberto Santos-Dumont.

Fernando de Arruda Botelho faleceu em 13 de abril de 2014 em um acidente aéreo nas proximidades do aeródromo do Broa, em Itirapina (SP). Apesar da perda, seu projeto permanece como um importante esforço de preservação da memória da aviação.
Hoje, algumas das réplicas continuam em operação e participam de eventos históricos, enquanto outras permanecem em coleções e instituições dedicadas à preservação do patrimônio aeronáutico. Assim, o projeto Demoiselle do Instituto Arruda Botelho consolidou-se como uma das iniciativas mais relevantes de resgate histórico da aviação brasileira, contribuindo para divulgar mundialmente o legado de Alberto Santos-Dumont.

Ficha técnica do nosso exemplar

Modelo

DEMOISELLE

Fabricante

SANTOS DUMONT

Ano de fabricação

1907

Motor

Darracq de 25 h.p., 2 cilindros horizontais opostos

Local de fabricação

Paris - França

Teto

4.000 ft

Autonomia

1h30

Capacidade

1 lugar

Peso máximo

145 Kg

Projeto de reconstrução Demoiselle

Demoiselle

Galeria de fotos de nosso exemplar

SR22